quarta-feira, maio 29

Capítulo 13 - 07 de Outubro, 10:01

Henri

Cheguei no estúdio ainda pensando no dia anterior. Havia passado a tarde com Samantha e Sarah no parque que ficava a duas quadras do apartamento da ruiva. Meu relacionamento com a Samantha não podia estar mais perfeito, e Sarah finalmente tinha se apegado a mim.
Eu tinha fotografado as duas brincando quase que a tarde toda, deixado a Sarah usar minha câmera e a ensinado sobre foco e flash. Me surpreendi ao ver a qualidade das fotos que a pequena tinha tirado após eu lhe ensinar algumas técnicas. Sarah tinha muito talento.
- Você está atrasado. - Louis me cumprimentou.
- Um minuto. - revirei os olhos - O que foi?
- Clientes novos.
Suspirei.
- Uma marca nova de roupas pediu para que fizéssemos um catálogo.
- Ok, vamos ver isso. - murmurei sentando na minha mesa e começando a descarregar as fotos do parque.
Comecei a separar as fotos que havia tirado naquela tarde. Samantha estava radiante com seu vestido branco com estampa de andorinhas, o cabelo laranja brilhando com a luz do sol. Ela ria em algumas fotos, em outras estava distraída ou fazendo caretas.
- Podíamos escalar Ada, Dorine, Graziella e Maëlle. - disse Louis. - Elas ficam boas em catálogos.
- Uhum. - murmurei olhando para uma foto de crianças brincando na grama.
- A Juliette também ficaria bem, e faz algum tempo que não a fotografamos.
- É.
- Henri? Você está me ouvindo?
- Por que nós fazemos isso, Louis? Por que fotografamos essas modelos?
- Sei lá, nós ganhamos por isso e o dinheiro é bom,
De fato era. Eu tinha um estilo de vida bastante elevado.
- Sim, mas será que vale a pena?
- Não estou entendendo. Onde você quer chegar?
Comecei a andar pela sala.
- Não tem emoção nas nossas fotos, não tem sentimento sabe? É completamente vazio, sem vida. Nossas fotos não passam nada. - eu murmurei agitado. - O que eu quero dizer é que o único propósito das nossas fotos é vender coisas. Eu não me tornei fotógrafo para isso. - apontei para a foto da tela do computador. - Sempre foi isso que eu quis, fotografar a vida, não modelos em pele e osso.
Louis apenas me olhou como se eu estivesse ficando louco.
- Não quero, não quero mais isso.
- Henri, você não pode estar falando sério. Nós demoramos para conseguir tudo isso, trabalhamos duro.
- Eu sei, Louis, eu sei. Mas eu não consigo mais continuar. Trabalhar aqui está me consumindo, sempre me matou por dentro, mas eu nunca me toquei até passar esses dois meses com Samantha. - eu dei um meio sorriso. - Sinto muito, Loius. Venho buscar minhas coisas amanhã; estou deixando o estúdio para você.
Então eu simplesmente saí, ignorando os chamados do meu melhor amigo, me sentindo livre pela primeira vez em muito tempo.

terça-feira, maio 28

Capítulo 12 - 30 de Agosto, 07:31

Samantha

Acordei com a luz do sol no meu rosto. Sorri ao me lembrar da noite passada. Demorei para perceber que eu estava deitada na minha cama, enrolada no edredom, e que Henri não estava ao meu lado.
Levantei, começando a ficar assustada, mas logo o alivio me inundou. A camisa que ele usara estava dobrada em uma das poltronas do quarto, junto com a minha roupa da noite passada. Peguei a camisa dele, vestindo-a e fui em direção a cozinha. Henri estava de costas para a sala, picando queijo em cima do balcão.
- E ele ainda cozinha. - eu murmurei com um sorriso no rosto.
Ele se virou para mim, um sorriso torto no rosto. A luz do sol dançava pelo seu rosto, deixando seus olhos castanhos em um tom de chocolate que me deixou tonta. Ele vestia apenas a calça jeans que usara na noite passada.
- Bom dia, minha Sam.
- Samantha. - sussurrei.
- Minha Sam. - ele veio até mim, me prendendo em um abraço. - Você está linda.
Revirei os olhos.
- O que você está fazendo?
- Elogiando minha menina. - ele riu.
- Sua?
- Minha.
Eu ri, tentando não corar.
- Eu já disse que você é muito ousado, senhor Fotógrafo?
- Não foi essa palavra que você usou ontem a noite.
- Henri! - corei.
Henri sorriu para mim, me apertando em um abraço, fazendo com que eu me sentisse mais segura.
- Hmm - murmurei perdida em seus braços, seu cheiro me deixando louca.
Ele desceu as mãos para minha cintura, me levantou e me colocou sentada no balcão. Cruzei minhas pernas ao redor dele. Henri me beijou lentamente, seus lábios descendo pelo meu pescoço, mandando calafrios pelo meu corpo, me fazendo arquejar.
- Acho que não precisamos comer agora. - ele sussurrou no meu ouvido.

Capítulo 11 - 29 de Agosto, 23:21

Henri

De fato, eu não pensei. Sabia que as coisas estavam indo rápidas demais, mas naquele momento, eu não me importei com isso.
A camisa branca que Samantha usava caiu em algum lugar da sala. Ela gemeu em minha boca quando eu a virei, deitando-a no tapete vermelho. Suas mãos apertaram minha nuca, puxando meu cabelo, descendo pelas minhas costas e arranhando por debaixo da minha camisa. Contive um gemido. Minhas mãos desceram pelo seu corpo e desabotoaram sua calça jeans, enquanto a ruiva abria minha camisa social e tirava minha calça.
Samantha me girou antes que eu percebesse e ficou em cima de mim. Eu podia ver algumas tatuagens que pintavam o corpo dela. A coruja na coxa, o Pac-Man de um lado do quadril e o fantasma do outro, uma frase em alemão nas costelas e um balão no pulso. O cabelo ruivo caía em cascatas de cachos por cima de seus seios. A visão dela assim, nua, sobre mim, me deixou tonto.
- Você é linda. - sussurrei, ainda a admirando.
Ela sorriu, se inclinando para me beijar.
- Xiu, não é hora de falar agora. - murmurou em meus lábios, suas mãos dançando pelo meu corpo.
Virei-a de volta, me colocando em cima dela. Desci minha boca pelo seu pescoço, ombros, seios, barriga, a sentindo gemer. Ela tinha um cheiro maravilhoso, me deixava tonto, enebriado.
- Ah, Henri. - meu nome saiu da sua boca como uma prece.
Sorri, beijando sua boca outra vez.
- Minha, minha Sam.
- Sua. - ela concordou.
Meus dedos correram pelo seu corpo, desenhando, traçando cada marca de tinta que eu conseguia ver. Ela tinha as fases da lua tatuadas no meio das costas. Sam era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
Então eu me deixei levar, nós dois nos perdendo em meio a pés, mãos, suor e gemidos.

segunda-feira, maio 27

Capítulo 10 - 29 de Agosto, 22:15

Samantha

Henri desceu com Sarah nos ombros, quase pulando pelos degraus da escada. Ouvi a risada da minha irmã fez com que eu sentisse calafrios pelo meu corpo. Henri conseguiu a convencer a pelo menos ficar no mesmo cômodo que ele sem ser agressiva. Ele a fazia rir com suas piadas e cócegas. Sarah ainda fazia uma certa resistência e se irritava quando ele me tocava, mas eu pude ver em seus olhos que ele a estava conquistando.
- Sua irmã tem muita atitude, mas é uma criança linda. - disse ele, já no carro, a caminho do meu apartamento.
- Sarah pode ser difícil, mas é um amor.
- É muito talentosa também. Ela faz eu me lembrar de quando eu era pequeno. - ele riu. - Eu era igualzinho, tirava foto de tudo que me chamasse a atenção.
- Bem diferente do que você faz agora, senhor Modelo de Esqueletos.
Ele riu da minha piada sem graça, estacionando o carro em frente ao meu prédio.
- Posso subir? - perguntou ele.
- Deve - sussurrei em seu ouvido.
Henri me puxou para um beijo longo, totalmente inesperado. Sua língua contornou meus lábios, mandando arrepios pela minha coluna, me fazendo quase implorar por mais. Uma de suas mãos me segurava pela cintura, não deixando eu me mexer; a outra estava em meus cabelos, me trazendo para mais perto.
- Lá em cima. - murmurou ele em meus lábios.
Consenti, arrastando escada acima para o número treze. Lutei com as chaves por alguns segundos, mas por fim consegui abrir a porta.
Henri me olhou, desejo diluído em seus olhos, mas apenas me puxou para o tapete e me deitou em seu  peito, suas costas encostadas no sofá, seus dedos descendo pela minha espinha, me acalmando e produzindo arrepios pelo meu corpo.
- Ei. - sussurou ele. - Gosto de você.
Sorri, meu coração batendo mais rápido.
- Gosto de você também - murmurei antes de beijá-lo.
Senti-o gemendo entre meus lábios. Ele me puxou para seu colo e eu envolvi sua cintura com minhas pernas. Suas mãos apertavam a base da minha cintura, me prendendo em cima dele, me fazendo soltar um leve gemido junto com a respiração.
Henri hesitou, me soltando por alguns minutos.
- Não pense. - sussurrei.- Só aja.
- Hmmm. - ele gemeu enterrando o rosto em meu pescoço e fazendo o que eu estava mandando.

sábado, maio 25

Capítulo 09 - 29 de Agosto, 18:12

Henri

- Sarah! - a mãe de Samantha praticamente gritou. - Peça desculpas agora!
Sarah apenas me olhou, seus olhos azuis semicerrados, a raiva transparecendo por eles de um jeito que não parecia que ela só tinha seis anos, me desafiando.
- Tudo bem... - comecei a murmurar, tentando acalmar as coisas.
- Não. - silenciou-me Samantha. Virou para a irmã e falou numa voz fria que eu jurava não ser dela. - Você vai pedir desculpas ao Henri agora. Não vou falar de novo.
- Não vou pedir desculpas porque não estou mentindo. Não quero ele aqui, não quero ele com você. - ela retrucou , encarando Samantha com o mesmo olhar frio, mas a voz vacilando um pouco. - Ele não presta.
Respirei fundo. Eu não achava que Sarah seria o problema, muito pelo contrário, achei que ela me adoraria. Havia tanto em comum entre nós dois que eu realmente acreditei que nos daríamos bem. Mas aqui estava ela, minha pequena inimiga, me querendo fora da vida da sua irmã.
- Pro seu quarto. - mandou Adeline.
Sarah bateu os pés, mas obedeceu. Ela tinha muita atitude para uma criança.
- Deixa para lá, minha Sam. - murmurei antes de abraçá-la.
- Me desculpe, ela nunca fez esse tipo de coisa antes.
- Está tudo bem.
Samantha me abraçou de volta, mas eu sabia que ela não acreditava em mim. Não estava nada bem. Sarah era a peça chave para o nosso relacionamento engatar, era a parte mais importante da vida de Samantha e o fato dela não gostar de mim não ajudava nada.
- O jantar está pronto. Me ajuda, Sam querida? - Adeline anunciou, tentando melhor o clima do ambiente.
- Onde fica o banheiro? - sussurrei.
- Lá em cima, terceira porta a esquerda. - Samantha me respondeu antes de ir ajudar a sua mãe.
Subi as escadas, minha cabeça começando a girar. O que fazer quando você vai conhecer a família do seu possível amor da sua vida e uma parte dela diz que você não presta?
- O que você faz aqui?
Sarah estava parada no final do corredor, a postura firma, os braços cruzados no peito.
- Procurando o banheiro.
- Você a ama?
- Não sei. - hesitei, pensando nisso. - Gosto muito da sua irmã, mas é muito recente para falar em amor.
- Você não a ama. - murmurou ela, a voz começando a embargar. - Não a ama. Que nem o Michel. Ele também não a amava, mas Sam o amava muito e ele quebrou o coração dela em mil pedacinhos. Foi horrível o que ele fez com ela, ela...
Havia lágrimas em seus olhos, tornando-os ainda mais azuis. Sarah tremia.
- Nunca vou machucá-la. - sussurrei. - Prometo a você, pequena.
- Ela não pode ter o coração quebrado outra vez, Henri, ela não vai suportar. Você não viu como ela ficou... por favor, não a machuque, não a machuque, por favor, por favor. - ela começou a soluçar.
Não me contive e abracei a menina, aninhando-a em meus braços. Ela parecia uma boneca de porcelana, prestes a quebrar, soluçando mais e mais forte.
- Hey, hey, pequena, está tudo bem. Eu não vou magoar sua irmã, eu realmente gosto dela, ela é a coisa mais importe que já me aconteceu.
Sarah assentiu, ainda tremendo. Afaguei seus cabelos pretos, acalmando-a.
- Ainda não gosto de você. - ela murmurou, mas enterrou o rosto no meu pescoço.
Não pude conter o sorriso.
- Você vai mudar de ideia, pequena, ou então eu lhe farei muitas cócegas.

quinta-feira, maio 23

Capítulo 08 - 29 de Agosto, 17:36

Samantha

Eu não me sentia inteiramente feliz assim havia algum tempo. As coisas com o Henri não poderiam estar melhores. Estávamos saindo fazia dias já, tomando cafés, visitando museus, indo a lojas de disco, livrarias e ensaios fotográficos. Confesso que eu ficava mais radiante conforme nosso relacionamento ia subindo de nível.
O interfone tocou, me avisando da chegada dele. Nós havíamos combinado de visitar minha irmã hoje, eu ia apresentá-lo para a minha pequena família.
- Já estou descendo. - falei pelo aparelho.
Calcei minhas botas pretas de cano curto, dei uma última olhada no espelho, arrumando o cabelo, e fui ao encontro dele.
Henri me esperava encostado na RAV4, usando uma camisa social branca e uma calça jeans preta, os olhos meio nervosos.
- Oi. - eu murmurei quando ele me viu. - Você está bem?
- Estou, só um pouco nervoso.
- Relaxe. - eu me inclinei para beijá-lo. - Elas vão amar você.
Ele me deu um sorriso não muito confiante, mas abriu a porta para mim e nós entramos no carro. Ensinei para ele o caminho e chegamos na grande casa branca em menos de dez minutos.
- Respire. - o beijei antes de sair da RAV4 e praticamente arrastar meu quase namorado até a porta de madeira.
Minha mãe terminava de preparar o jantar, o cheiro delicioso do peixe se espalhando por toda a casa. Ela sorriu quando me viu entrar de mão dada com Henri.
- Oi, criança. - ela disse, lavando as mãos e vindo me abraçar. - Você deve ser o Henri. - ela sorriu para ele, o puxando para um abraço. - Samantha me falou bastante de você.
- É um prazer conhecê-la, senhora Duerre.
- Me chame de Adeline, por favor. - ela voltou para a cozinha. - E o prazer é meu por conhecê-lo, Henri. Essa menina não sorria desse jeito já fazia muito tempo.
Rolei os olhos. Henri sorriu para mim, relaxando visivelmente.
- Quem é ele? - a voz da minha irmã ecoou pelo cômodo quando ela apareceu na sala.
- Sarah, esse é o Henri. Ele é fotógrafo também. - eu sorri, apresentando-os.
- Eu vi suas fotos, pequena. Você é muito boa, sabia? - Henri sorriu para ela, se abaixando para ficar da sua altura.
- Vocês estão namorando? - Sarah perguntou para mim, ignorando-o.
Troquei um breve olhar com Henri.
- Não exatamente. - respondemos juntos.
Minha irmã olhou nos olhos do meu quase namorado com toda uma atitude e confiança que uma criança de seis anos pode ter.
- Não me importo com a sua opinião, Henri. E não quero você aqui.

quarta-feira, maio 22

Capítulo 07 - 17 de Agosto, 14:52

Henri

Eu não tinha notícia da Samantha há três dias, quando encontramos o namorado dela. Minha mente andou confusa desde então. As coisas tinham acontecido tão rápido entre nós, mas uma parte de mim estava começando a pensar que poderia dar certo dessa vez , apesar disso. Havia algo em Samantha que me deixava fascinado. Talvez fossem seus olhos inteligentes, ou a postura culta e madura para uma menina de dezenove anos, ou o jeito como ela andava, confiante de si mesma, não sei. Mas a ruiva realmente tinha me cativado.
- Sabe o que eu não entendi? - murmurei para Louis, que estava sentado na mesa ao lado da minha - Ela não estava feliz por ele estar lá, eu podia ver isso em seus olhos, ela o queria longe. Então por que eu que saí por aquela porta?
Louis suspirou.
- Vai ver ela estava confusa. Mulheres são confusas.
- Não a Sam, ela não é como as outras.
- Você nem a conhece, Henri.
Dei de ombros.
- Para de se torturar, a culpa não foi sua. Eu sinto muito por não ter dado certo, mas agora você tem que seguir em frente. Existem mulheres melhores do que Samantha.
- Existem, é?
Pulei da cadeira ao ouvir aquela voz. Era ela. Samantha estava parada na porta, usando um jeans escuro, uma camisa branca e uma touca cinza, os olhos azuis semicerrados.
- Você sabe o quanto foi difícil te encontrar, Henri Pierre? - ela perguntou, sua voz assumindo um tom de raiva. - Existem muito fotógrafos chamados Henri. Ah, e obrigada por me deixar esperando para o almoço.
- Não achei que você estivesse disponível, não depois que o seu namorado apareceu.
- Ex-namorado. - Samantha frisou. - Ex. E não se preocupe com ele, Michel está agora mesmo procurando outro apartamento e me esquecendo, com todas as suas coisas enfiadas naquela mochila horrível. Eu o mandei ir para o inferno.
Não pude conter um sorriso. Olhei para Louis, mas ele tinha sumido em algum momento após Samantha chegar. Só estávamos nós dois na pequena recepção do estúdio.
- Pare de sorrir como se tivesse ganhado o mundo. - ela riu.
- Eu ganhei você? - perguntei andando até ela e a puxando para meus braços.
- Talvez. - ela não fez resistência ao meu abraço.
- Então eu realmente ganhei o mundo.
- Cala a boca. - ela riu outra vez.
E eu calei, mas de qualquer jeito eu estava ocupado demais beijando-a para falar o que quer que fosse.

terça-feira, maio 21

Capítulo 06 - 14 de Agosto, 00:19

Samantha

- Você quer subir? - ouvi minha voz murmurar, meus lábios ainda nos seus.
Ele me olhou com profundos olhos castanhos cor de chocolate derretido.
- Claro.
Peguei sua mão, entrelaçando meus dedos nos dele e o levei escada acima pelo prédio até chegarmos no apartamento de número treze. Olhei-o nos olhos antes de colocar a chave na porta, parando para beijá-lo outra vez, meu dedos deslizando por seu cabelo grosso. Henri me apertou contra a porta ainda fechada, as mãos na minha cintura, me segurando firme. Arquejei, girando a chave e abrindo a porta.
Puxei-o para dentro, as mãos dele ainda me segurando, as minhas no seu cabelo, nossos rostos afastados só um pouco. Demorei quase um segundo para perceber a luz já acessa. Meus olhos percorreram a sala de estar, assustados, mas não havia nada que indicasse a presença de alguém.
Coloquei um dedo na boca, pedindo para Henri ficar em silêncio e me afastei dele. Caminhei sem fazer barulho, vasculhando cada canto que eu conseguia enxergar. Havia uma mochila de viagem jogada no chão do meu quarto.
- Mas que....? - eu comecei a dizer, mas fui interrompida quando um homem saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura.
Um homem não. Era Michel. Meu ex-namorado. A mesma aparência de oito meses atrás - olhos azuis, cabelos pretos, sorriso maldoso - quando ele saiu em uma excursão pelo mundo e nunca mais falou comigo.
- Querida, você chegou finalmente. - ele sorriu para mim.
- O que você faz aqui? - consegui me forçar a falar.
Ele se limitou a apenas sorrir e andar até a sua mochila jogada no pé da minha cama, ignorando a presença de Henri.
- Você nem vai acreditar nas coisas que eu vi, querida. A América é realmente uma doideira.
- Faz oito meses. - eu murmurei. - Você não me dá notícias há oito meses.
- Mas eu voltei. - ele andou até mim e me abraçou, me roubando um beijo. - Você pode fazer algo para comer? Estou faminto. - ele deu um tapa na minha bunda e voltou para o banheiro.
Henri se mexeu desconfortável. Minha cabeça estava flutuando. Senti que começaria a chorar a qualquer momento, a raiva me invadindo.
- Acho melhor eu ir. - ele murmurou.
- Sim. - não consegui dizer outra coisa.
Eu sabia que deveria ir atrás dele, que deveria expulsar o louco do meu ex-namorado imediatamente e finalmente ficar com Henri, o estranho que me cativara em pouco tempo. Mas naquele momento, eu não consegui fazer nada a não ser observá-lo sumir.

Capítulo 05 - 14 de Agosto, 00:07

Henri

Estávamos parados em frente ao prédio onde Samantha morava, na Rue de la Passion, apenas alguns passos depois de onde eu a havia encontrado no dia em que nos conhecemos. O vento fazia os cabelos laranjas dela se agitarem e irem de encontro ao seu rosto, mas Samantha parecia não ligar, encolhida dentro do meu casaco grande demais para ela.
Nosso café tinha sido mais do que agradável. Ela me contou sobre seus livros já escritos e sobre os que pretendia escrever; contou sobre suas bandas favoritas que nem ao menos cantavam na nossa língua; sobre sua irmã Sarah, que amava fotografia, a autora dos desenhos e de todas as fotos que estavam coladas na agenda; sobre o porque de morar sozinha em um apartamento grande demais para ela; e sobre suas oito tatuagens - duas na nuca, duas no quadril, uma na coxa, uma na costela, uma no meio das costas e uma outra no pulso. Eu lhe contei sobre meu tedioso trabalho, ela se chocando quando eu dizia odiar o que fazia; contei sobre minha vida sem graça que se resumia a tirar fotos de modelos esqueléticas e assistir a filmes de ação comendo macarrão instantâneo. Conversamos sobre nossos escritores favoritos, sobre filmes e comida, até que o relógio marcou meia noite e ela disse que precisava ir. Ofereci levá-la em casa, e aqui estávamos nós, parados na pequena rua mais romântica da França.
- Que tal um almoço amanhã? - arrisquei um segundo encontro.
Ela riu, uma risada tão encantadora que fez meus pelos arrepiarem e causou borboletas no meu estômago.
- Aposto que você tem coisa mais importante para fazer, senhor Fotógrafo de Modelos.
- Nada seria mais importante que passar um tempo contigo, Sam.
Suas bochechas coraram imediatamente e ela abaixou a cabeça, sem graça.
- Samantha. Meu nome é Samantha, não Sam. - ela murmurou tentando mudar o foco do assunto.
- Sam. - sussurrei chegando mais perto dela. - Minha Sam.
- Sua? - ela perguntou com um sarcasmo na voz. - É muita ousadia dizer que sou sua, estranho.
Eu sorri. Realmente era ousadia da minha parte. Mas havia algo nessa garota que despertava o lado mais atrevido de mim.
- Eu te busco ao Meio-Dia, minha Sam. - pisquei para ela antes de ir em direção ao meu carro.
- Espere! Seu casaco. - ela correu até mim.
- Fique com ele. Pode me devolver amanhã, assim você não terá desculpa para não me ver. - sorri outra vez.
Samantha riu alto.
- Até mais, minha Sam.
- Henri... - ela chamou antes que eu entrasse no carro.
- Sim? - me aproximei dela.
E então, sem que eu esperasse, a ruiva me beijou.

segunda-feira, maio 20

Capítulo 04 - 13 de Agosto, 18:58

Samantha

Dei uma última olhada no espelho do banheiro, conferindo meu cabelo rebelde. Ele caía em cachos pelos meus ombros até a minha cintura de um jeito desordenado.
- Samantha? Você está pronta. - ouvi a voz da minha agente, Anne, do outro lado da porta.
- Dois segundos. - gritei enquanto encarava meu reflexo.
Amassei meus cachos com os dedos, tentando dar ordem, mas não ficaria melhor do que estava. Enfim, saí do banheiro.
- Seus fãs a esperam. - a empolgada Anne quase gritou enquanto meio que me arrastava para a mesa da pequena livraria.
Passei uma hora respondendo perguntas a respeito do meu mais novo livro e se eu tinha já tinha planejado um próximo. Eu adorava esse momento de interação com meus fãs, saber que eles realmente se interessavam pelas minhas histórias e as viviam em suas mentes. Depois, comecei a autografar exemplares de "Meia Noite, Embaixo da Torre" e alguns papéis, escrevendo dedicatórias especiais para cada fã.
Eu já estava autografando livros havia quase duas horas quando o notei. Era ele. Henri.
- Você. - disse surpresa. - O que faz aqui?
- Vim conseguir um autógrafo. - ele sorriu me entregando um exemplar do meu livro.
Abri na primeira página e rabisquei uma frase.
- Para Henri. Você me deve um short branco novo. - riu ele ao ler em voz alta. - Tome um café comigo quando o evento acabar e podemos discutir isso.
Revirei os olhos, chamando o próximo da fila.
Uma hora depois e todos os fãs estavam satisfeitos com seus autógrafos e fotos. Henri estava sentado em uma das poltronas, absorto com meu livro no colo.
- Hey. - sentei ao lado dele.
- Oi. - ele me deu um sorriso e eu finalmente reparei nele.
Seu cabelo era de um castanho claro, grosso, completamente despenteado. Ele tinha olhos castanhos lindos, como chocolate derretido. A barba rala era de um tom de castanho quase ruivo. Havia covinhas nas bochechas quando ele sorria.
- Creio que isso seja seu. - ele tirou uma agenda do bolso e me entregou.
- Ah! Você a encontrou. - o alívio se espalhou dentro de mim. - Foi assim que me achou?
- Sim. - respondeu ele com um sorriso de ladinho. - Vamos? Você me deve um café.
Sorri para ele.
Só um café, Samantha, prometi a mim mesma. É, só um café. O que pode acontecer?

Capítulo 03 - 13 de Agosto, 13:04

Henri

- Henri, você está me ouvindo?
Pisquei, tentando clarear a mente.
- Claro, Louis. Você estava falando sobre o ensaio.
- Não. - respondeu Louis revirando os olhos. - Eu estava perguntando se você vai almoçar.
- Perdoe-me. Estou com a cabeça nas nuvens.
Louis trabalhava comigo há dois anos, mas nós nos conhecíamos há uns dez já. Ele jogou meu casaco no meu rosto e eu o coloquei desajeitado enquanto saímos do estúdio e caminhávamos até o pequeno restaurante de esquina.
- Qual o nome dela? - perguntou ele quando sentamos numa das mesinhas vermelhas ao ar livre.
- Quem?
- A garota. Não negue. - ele murmurou antes que eu começasse a esboçar qualquer resposta.
Contive um suspiro. Ele me conhecia bem demais.
- Samantha. Samantha Duerre.
- Bonita?
- Linda. - sorri.
- Como você a conheceu?
Joguei a agenda em cima da mesa. Eu já havia lido cada página dela, memorizado cada detalhe, cada foto. Sabia das coisas que Samantha gostava, dos eventos importantes que ela já comparecera e quais ela estaria até o final do ano. Observei todas as fotos aleatórias e os desenhos feitos pela irmã que fizera seis anos ontem, Sarah, a pequena dos cabelos pretos.
- Esbarrei com ela ontem voltando do trabalho. Encontrei a agenda no chão logo que ela saiu, deve ter caído da bolsa.
Louis folheou a agenda, os olhos verdes passando rápidos pelas páginas.
- Culta. - comentou notando os ingressos para museus e peças teatrais. - Gosta de bandas que eu nunca ouvi falar. - havia várias citações e trechos de músicas por toda a agenda. - Fotografias. É, vocês tem pelo menos isso em comum. - ele reprimiu um sorriso. - Linda.
Ele estava olhando uma foto dela. Samantha olhava para baixo, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, as bochechas coradas como se estivesse sem graça com algum elogio, um sorriso tímido nos lábios.
- Espera. Eu conheço ela. - Louis sussurrou. - Ela é escritora. Eu li um livro dela.
Revirei os olhos.
- Isso eu sabia. - coloquei na página reservada ao dia 13 de agosto, apontado para um folheto escrito "Sessão de Autógrafos e Lançamento de 'Meia Noite, Embaixo da Torre' com Samantha Duerre." seguido por uma ilustração de um casal na Torre Eiffel, o local e a hora.  - Hoje é o lançamento do terceiro livro dela.
- Meu querido amigo, hoje nós fechamos mais cedo. - Louis sorriu para mim fechando a agenda. - Temos um evento para comparecer, e quem sabe arrumar uma namorada para você.

domingo, maio 19

Capítulo 02 - 12 de Agosto, 17:34

Samantha

Meu telefone tocou me tirando do meu devaneio.
- Oi, mãe. - atendi com um suspiro. - Já estou no táxi. Ela já chegou?
- Já. Está vendo desenho. - minha mãe riu.
- Não diga que estou indo. Chego em quatro minutos.
- Ok.
Dizendo a minha mente que eu deveria me concentrar e esquecer o episódio com o tal do Henri, abri a minha mochila e tirei a pequena caixa de presente, confirmando se ela ainda estava inteira. O papel dourado estava um pouco amassado, mas nada que prejudicasse o conteúdo.
- Pronto, senhorita Samantha. - o motorista estacionou em frente a casa grande.
- Obrigada, Jacques. Fique com o troco. - sorri entregando uma nota para ele e corri para fora do carro, o presente balançando em minhas mãos.
Abri a porta sem fazer barulho nenhum, lembrando das vezes em que fazia isso as quatro da manhã, dois anos atrás. A sala ficava ao lado esquerdo, seguida pela cozinha. Eu podia ver a televisão ligada, a cabeça da minha irmã encostada no encosto do sofá, e minha mãe colocando pipoca em uma bacia azul na bancada da cozinha.
Andei até as costas do sofá lentamente e tapei os olhos da minha irmã. Ela gargalhou, já acostumada com a brincadeira.
- Quem é? - perguntou ainda rindo.
- Adivinhe. - engrossei a voz.
- Um alienígena que veio sugar meu cérebro para alimentar seus filhotes com cabeças de cachorro e corpo de lula. - ela riu ainda mais alto.
- Onde você aprende essas coisas, Sarah? - eu ri, sentando ao lado dela.
- Mamãe disse que você não vinha, mas eu não acreditei. Eu sabia que você vinha.
- Claro que eu vinha, pequena. - sorri. - Trouxe algo para ti.
Entreguei a caixa em suas mãos. Ela abriu com um olhar curioso, os olhos azuis brilhando, as mãos rápidas abrindo o pacote com cuidado.
- Sam! - ela gritou. - Você revelou minhas fotos. Ah, obrigada. - ela abraçou as fotos, os olhos começando a lacrimejar.
Eu ri, bagunçando seu cabelo preto como a tempestade. Sarah era apaixonada por fotos desde os seus quatro anos, quando aprendeu para o que servia uma máquina fotográfica. A partir daquele dia, minha irmã não saía mais sem ela, capturando tudo aquilo que lhe chamasse a atenção.
- Quero que fique com essa. É a minha favorita. - Sarah murmurou. - Coloque na agenda.
Era uma foto minha de costas, o cabelo ruivo preso em um nó frouxo, deixando a mostra minhas duas tatuagens da nuca - uma frase que dizia "Aponta para fé e rema" e as sombras de Peter Pan, Wendy e seus irmãos voando até a Terra do Nunca. Eu não sabia que ela havia tirado aquela foto até vê-la revelada.
- Claro. - abri a mochila procurando minha agenda. - Não está aqui.
O pânico tomou conta de mim. Minha vida estava naquela agenda.
- Você deve ter esquecido em casa. - minha mãe murmurou, enquanto se sentava ao nosso lado.
- É, acho que sim.
Mas eu sabia que não. Sabia que a havia perdido, e que tinha alguma relação com o estranho que me jogara ao chão. Eu tinha que achar o Henri.

sábado, maio 18

Capítulo 01 - 12 de Agosto, 17:21

Henri

Eu andava distraído, minha cabeça voltada para a tarde angustiante que tivera no estúdio. Fotos e mais fotos para revelar, projetos e edições para revisar, clientes para atender. Já fazia tempo que eu não tinha mais prazer no trabalho. Para falar a verdade, acho que eu nunca gostei dele, não era meu sonho ficar trancado em um estúdio tirando fotos e de modelos e mais modelos magras e mais magras.
Minha cabeça estava tão nas nuvens que só reparei na menina a minha frente quando nos chocamos e ela caiu no chão, a mochila rolando e indo parar a alguns passos de distância.
- Aimeudeus! Seu idiota! - a voz dela mandou calafrios pelo meu corpo.
- Perdoe-me - murmurei ajudando-a a se levantar.
Dei uma boa olhada nela. O cabelo ruivo caía em cachos grossos e desordenados até a cintura de um jeito completamente bagunçado, mas totalmente sexy. Os olhos eram azuis com pontinhos verdes bem delicados que pareciam dançar conforme ela piscava, os cílios grandes. Havia algumas sardas nas maçãs do rosto e no nariz, que tinha uma argola preta no lado direito. A boca tinha um tom de rosa natural e era perfeitamente cheia. Ela vestia uma camisa social preta e um short branco, que escondia parte de uma tatuagem de coruja na coxa.
- Samantha. - disse ela.
- O quê?
- Meu nome. Samantha. Acho necessário que você saiba o nome da garota que derrubou, pois assim você vai viver com culpa. - ela sorriu, mostrando covinhas nas bochechas e dentes brancos e perfeitos.
- Henri. - disse meu nome.
- Bem, se você me der licença, Henri, - ela frisou meu nome enquanto pegava sua mochila. - meu táxi está me esperando.
Samantha sorriu mais uma vez e entrou no táxi, que só agora eu havia reparado, estacionado próximo ao meio fio. Observei-a ir com um pequeno sorriso nos lábios.
Meus olhos captaram um brilho prata no chão. Perto de onde a mochila dela havia caído, estava uma pequena agenda preta com pontinhos de luz prata. Peguei-a, me surpreendo com o peso. Havia vários pedaços de papéis presos por clipes ou cola.
Ainda sorrindo, abri a agenda em uma página qualquer. Uma foto de Samantha com uma menina de no máximo cinco anos no colo. As duas sorriam como se a foto tivesse sido tirada no meio de uma risada. Um feixe de luz deixava os cabelos de Samantha em um tom de laranja tão forte que berrava em contraste com os negros da menina pequena. Elas tinham os mesmo olhos, azuis com pontinhos verdes, que estavam um pouco mais claros por causa do sol.
Olhando para aquela foto, com um sorriso bobo nos lábios, eu me lembrei do porque eu quis ser fotógrafo.