Samantha
Meu telefone tocou me tirando do meu devaneio.
- Oi, mãe. - atendi com um suspiro. - Já estou no táxi. Ela já chegou?
- Já. Está vendo desenho. - minha mãe riu.
- Não diga que estou indo. Chego em quatro minutos.
- Ok.
Dizendo a minha mente que eu deveria me concentrar e esquecer o episódio com o tal do Henri, abri a minha mochila e tirei a pequena caixa de presente, confirmando se ela ainda estava inteira. O papel dourado estava um pouco amassado, mas nada que prejudicasse o conteúdo.
- Pronto, senhorita Samantha. - o motorista estacionou em frente a casa grande.
- Obrigada, Jacques. Fique com o troco. - sorri entregando uma nota para ele e corri para fora do carro, o presente balançando em minhas mãos.
Abri a porta sem fazer barulho nenhum, lembrando das vezes em que fazia isso as quatro da manhã, dois anos atrás. A sala ficava ao lado esquerdo, seguida pela cozinha. Eu podia ver a televisão ligada, a cabeça da minha irmã encostada no encosto do sofá, e minha mãe colocando pipoca em uma bacia azul na bancada da cozinha.
Andei até as costas do sofá lentamente e tapei os olhos da minha irmã. Ela gargalhou, já acostumada com a brincadeira.
- Quem é? - perguntou ainda rindo.
- Adivinhe. - engrossei a voz.
- Um alienígena que veio sugar meu cérebro para alimentar seus filhotes com cabeças de cachorro e corpo de lula. - ela riu ainda mais alto.
- Onde você aprende essas coisas, Sarah? - eu ri, sentando ao lado dela.
- Mamãe disse que você não vinha, mas eu não acreditei. Eu sabia que você vinha.
- Claro que eu vinha, pequena. - sorri. - Trouxe algo para ti.
Entreguei a caixa em suas mãos. Ela abriu com um olhar curioso, os olhos azuis brilhando, as mãos rápidas abrindo o pacote com cuidado.
- Sam! - ela gritou. - Você revelou minhas fotos. Ah, obrigada. - ela abraçou as fotos, os olhos começando a lacrimejar.
Eu ri, bagunçando seu cabelo preto como a tempestade. Sarah era apaixonada por fotos desde os seus quatro anos, quando aprendeu para o que servia uma máquina fotográfica. A partir daquele dia, minha irmã não saía mais sem ela, capturando tudo aquilo que lhe chamasse a atenção.
- Quero que fique com essa. É a minha favorita. - Sarah murmurou. - Coloque na agenda.
Era uma foto minha de costas, o cabelo ruivo preso em um nó frouxo, deixando a mostra minhas duas tatuagens da nuca - uma frase que dizia "Aponta para fé e rema" e as sombras de Peter Pan, Wendy e seus irmãos voando até a Terra do Nunca. Eu não sabia que ela havia tirado aquela foto até vê-la revelada.
- Claro. - abri a mochila procurando minha agenda. - Não está aqui.
O pânico tomou conta de mim. Minha vida estava naquela agenda.
- Você deve ter esquecido em casa. - minha mãe murmurou, enquanto se sentava ao nosso lado.
- É, acho que sim.
Mas eu sabia que não. Sabia que a havia perdido, e que tinha alguma relação com o estranho que me jogara ao chão. Eu tinha que achar o Henri.
Nenhum comentário:
Postar um comentário